O regresso à vida no campo

As características naturais do mais remoto Interior Norte servem e atractivo para muitos jovens que ali estão a construir as suas vidas.

Miguel Nóvoa mora há sete anos em Atenor. É natural de Esposende mas é ali, naquela pequena aldeia mirandesa, que tem hoje a sua vida, como secretário técnico da Raça Asinina de Miranda e técnico da Associação Para o Estudo e Protecção do Gado Asinino (AEPGA), ali sedeada.




O gosto pela natureza e biodiversidade, características do interior do país, cada vez cativa mais jovens originários dos centros urbanos que contrariam a desertificação e alguma ausência de desenvolvimento sócio- económico. Miguel Nóvoa sempre vai afirmando que estas pessoas são importantes para regiões onde falta alguma capacidade de iniciativa ou o desenvolvimento de um projecto ou ideia.



“Um dos motivos que leva à minha fixação no Planalto Mirandês é o de acreditar que ainda existe futuro para o mundo rural associado à conservação da natureza e à protecção dos valores culturais. Nesta região outro tipo de opiniões pode fortalecer a ideia de que não só à custa da indústria e do betão se pode proporcionar o desenvolvimento económico da região", explicou Miguel Nóvoa.



"O trabalho desenvolvido em diversas áreas começa a ser uma referência que ultrapassa as fronteiras da região, sendo o mesmo reconhecido no país e no estrangeiro", frisou. Para além da orientação que é dada aos criadores da raça de burros das Terras de Miranda, que se encontra ameaçada, a AEPGA proporciona ainda várias actividades ligadas ao turismo da natureza, que atrai à região cerca de cinco mil visitantes por ano.



Esta é a região mais periférica do Norte do país, estendendo-se desde Vimioso, no distrito da Bragança, a Figueira de Castelo Rodrigo, no Norte do distrito da Guarda, e é muitas vezes considerada "o interior do interior". Porém, ali é possível encontrar licenciados em diversas áreas que deixaram as grandes cidades para aí desenvolverem vários projectos. Muitos chegaram à região mal concluíram os cursos universitários, acabaram por ficar e criaram as suas formas de sustento. Alguns destes jovens assumem-se já como "neo-rurais", o termo criado para designar uma nova classe de pessoas que, tendo nascido na cidade, optam por viver no campo.



Vantagens e desvantagens



António Roleira, um biólogo de 29 anos, que reside em Vilar Seco (Vimioso), centrou os seus conhecimentos na recuperação e revitalização dos pombais tradicionais, através de uma outra associação que fomenta o desenvolvimento rural, a Palombar.



"As diferenças entre o litoral e o interior acabam por ser mais positivas que negativas. O contacto com as pessoas é mais facilitado para além de ser um espaço único para desenvolver o meu trabalho de forma a promover a região com base naquilo que lhe é característico", explica o biólogo.



No campo da promoção turística, há técnicos no terreno preocupados com a exploração da região de forma a criar actividades relacionadas com o turismo não massificado, como foi a opção escolhida por Joana Braga e Bruna Moreira. No entanto, estas duas técnicas de turismo e ambiente mostram-se algo "apreensivas" com o futuro, já que a falta de apoios financeiros ao trabalho que desenvolvem pode condicionar a permanência na região.



"Gostava de ficar na região e continuar o trabalho já desenvolvido. Os apoios financeiros, por parte das mais diversas entidades, são poucos, sendo difícil fazer previsões de futuro", esclarece Joana Braga.



É uma ideia generalizada entre estes jovens profissionais que é preciso criar mecanismos financeiros que ajudem a fixação de profissões ligadas à conservação da natureza para que haja também uma maior fixação de pessoas, dado o potencial da região.



Mais optimista mostra-se Sara Riso, que chegou ao Parque Natutal do Douro Internacional (PNDI) para concluir o projecto final do curso de Biologia. O trabalho desta jovem centra-se na avi-fauna daquela área protegida, com destaque para o estudo da Cegonha Negra, uma espécie igualmente ameaçada pelos novos hábitos humanos.



"A motivação começou a crescer e rapidamente iniciei projectos em outras áreas e fui ficando. A minha ligação a estas terras já é muito forte, passe por onde passe, um dia ficarei cá a morar", afiança a jovem bióloga de 23 anos, vinda de Lisboa.



Se o percurso de Sara Riso ainda está no seu início, Ana Berliner, igualmente bióloga, teve já vivências profissionais semelhantes.


Deslocação facilitada

A residir em Castelo Rodrigo, no sul do PNDI, Ana Berliner, de 35 anos, originária de Lisboa, acabou mesmo por se fixar na região onde vive há 13 anos, casou e constituiu família. Mantém actividade associativa e é proprietária de uma casa de turismo rural localizada naquela histórica freguesia. "Quando aqui cheguei, adaptei-me com facilidade, já que dentro da minha área esta região tem muito potencial. Tive muita sorte, devido à oportunidade que tive para estudar numa zona muito interessante no que diz respeito às aves rupícolas, já que o PNDI é um verdadeiro santuário para estas espécies".

Hoje, a bióloga diz não sentir falta da cidade, já que nos últimos anos se tornou mais fácil a deslocação aos grandes centros urbanos, quando é necessário. "As únicas diferenças entre o Litoral e o Interior prendem-se com o facto de no Interior encontrar mais tranquilidade, o que proporciona melhor qualidade de vida. Porém, há o reverso da medalha", e aqui basta lembrar o exemplo dos serviços de saúde cujas condições são mais difíceis do que no Litoral.

Apesar da vontade demonstrada de permanecerem no Interior do país, para a maioria destes jovens fica também mantém-se a falta de algumas ocupações de tempos livres que tinham nas cidades de origem, com o cinema, as artes cénicas ou outros espectáculos à cabeça da maioria das preferências. Algumas dessas lacunas são preenchidas pelos próprios, que tomam a iniciativa de organizar actividades assentes na cultura da região.

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