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segunda-feira, 10 de maio de 2010

O FarmVille


O FarmVille é uma das grandes modas no Facebook. O conceito é simples, como convém a um jogo que se destina sobretudo a quem não é fã de videojogos: o jogador tem de arar terrenos, plantar sementes, colher frutos e legumes, cuidar de animais e ganhar dinheiro a vender os produtos da sua quinta.


Como o jogo se passa dentro dos muros do Facebook, há uma forte componente social: os jogadores podem enviar presentes aos amigos (por exemplo, uma vaca) e ter vizinhos, que se entreajudam nas tarefas de manutenção da quinta.




O jogo está concebido para explorar um mercado que já há algum tempo as produtoras perceberam ter potencial: os chamados jogos casuais, voltados para quem não quer investir demasiado tempo e atenção num videojogo - e também direccionados para o público feminino, tradicionalmente mais avesso a este tipo de diversão.



Muitos jogos casuais são apropriados para uma curta pausa no trabalho ou para alguns minutos de relaxamento ao final do dia. Mas o FarmVille (como alguns outros títulos on-line) é daqueles jogos feitos para agarrar o jogador: quanto mais tempo lá se passa, mais colheitas se fazem, maior se torna a quinta e mais dinheiro virtual se pode ganhar. Há quem passe muitas horas no FarmVille, frequentemente para desespero dos "amigos" do Facebook, que, até há pouco tempo (antes de o Facebook começar a esconder da página principal as mensagens que considera menos relevantes), eram inundados com torrentes de notificações sobre as actividades agrícolas. Em português, até já foi criado no Facebook o "Grupo de Pessoas que NÃO jogam FarmVille". Tem quase 60 mil membros e uma mensagem elucidativa: "O FarmViille [SIC] é como um vírus que se apodera da mente das pessoas, tornando as mesmas dependentes de criar ovelhas, couves e afins..."



O FarmVille pode irritar milhares de pessoas. Mas, com 80 milhões de jogadores (dados não oficiais) conseguidos entre os cerca de 400 milhões de pessoas que estão no Facebook, o jogo é uma aposta ganha para a Zynga, uma empresa americana fundada em 2007, que ronda actualmente os 760 funcionários (eram 27 aquando da fundação).



A Zynga produz perto de três dezenas de jogos. O FarmVille é o mais bem-sucedido. O número de agricultores deixa a léguas alguns dos mais conceituados e jogados títulos do mundo. Por exemplo, World of Warcraft é considerado um gigantesco sucesso e está até no Guinness pela imensa popularidade. Tem perto de 11 milhões de jogadores.



Vender dinheiro digital



Uma das grandes diferenças entre os dois jogos é que World of Warcraft é tudo menos casual. Exige horas de dedicação. E - factor importante - implica o pagamento mínimo de 11 euros por mês. Já no FarmVille não é preciso pagar um cêntimo. Mas nem por isso a Zynga deixa de facturar milhões.



A Zynga ganha dinheiro a vender dinheiro, um conceito que não é novo neste tipo de mundos digitais. Basicamente, o jogador pode gastar dinheiro real para comprar dinheiro virtual, com o qual pode então comprar sementes, ferramentas, edifícios e animais.



No FarmVille, há dois tipos de dinheiro digital. Um são as moedas, que o jogador recebe quando vende produtos no mercado ou até em "lotarias" ocasionais. É possível comprar estas moedas com um cartão de crédito ou outro sistema de pagamento on-line (cinco dólares compram 7500 moedas; um porco, por exemplo, custa mil moedas e sementes de morango custam apenas dez).



Porém, há ainda as notas. Estas são mais raras e dão acesso a itens que não se podem comprar de outra forma. Ao progredir no jogo, o agricultor vai recebendo algumas notas - mas muito poucas. O caminho mais fácil e rápido é comprá-las. Cinco dólares dão para 25 notas; uma galinha custa entre sete e 25 notas.



Da fraude à caridade



Vender bens digitais permite às empresas grandes margens de lucro, dado que não há custo com matérias-primas. Vender uma galinha no FarmVille custa à Zynga exactamente o mesmo que vender 10 milhões. Depois de a galinha ter sido inicialmente programada por informáticos, praticamente não há mais custos.



Graças a jogos como FarmVille, a Zynga facturou muitos milhões em 2009. Quantos, não se sabe ao certo, e a empresa recusou-se a responder a todas as perguntas feitas pelo P2 e a confirmar qualquer dado. Segundo a Reuters (que cita uma fonte anónima), as receitas poderão ter totalizado 218 milhões de euros no ano passado. Algumas estimativas mais cautelosas apontam para metade desse valor. Seja como for, o certo é que já houve tempos difíceis.



Mark Pincus, o americano fundador da Zynga, declarou numa conferência há um ano ter feito "coisas horríveis" só para gerar receitas e ajudar a start-up a crescer. Pincus referia-se a esquemas enganadores, que existiam em vários jogos da Zynga.



No caso do FarmVille, estes esquemas pediam que o jogador fizesse algo em troca de dinheiro virtual. Podia ser instalar um programa no computador, que depois era praticamente irremovível e que mostrava anúncios publicitários. Ou fazer um teste de QI (daqueles que abundam na Web, sem validade científica), no qual é preciso fornecer um número de telemóvel - na verdade, o utilizador estava a subscrever um serviço de conteúdos móveis que custava mais de sete euros por mês. No ano passado, veio a público a notícia de que a Zynga recorria a estes esquemas e a empresa acabou por abandonar a estratégia.



A Zynga, de resto, já não precisa de arriscar a reputação para fazer dinheiro e até se pode dar ao luxo de apoiar acções de solidariedade. Criou, aliás, uma divisão da empresa só para este tipo de actividades, com o lema "Mudar o mundo através dos jogos". Recentemente, os jogadores do FarmVille passaram a ter a opção de comprar um tipo especial de milho. As receitas destas compras iam para um fundo de apoio ao Haiti. Foi enviado mais de um milhão de euros.






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