(Re)povoar o meio rural - Reocupação neo-rural

                       

Portugueses urbanos, Alemães, Britânicos, Franceses, Holandeses, Suíços... 

realizam os seus projectos e o seu sonho rural em Portugal

Novas populações em meio rural: do acolhimento ao acompanhamento 
Vários territórios rurais sofrem um declínio demográfico e um envelhecimento da sua população. Mas deparam-se também com um novo interesse por parte dos citadinos que procuram aí instalar-se. À escala europeia, os territórios organizam-se de maneiras muito diversas face à chegada destas novas populações.

Com a terciarização acelerada da economia
do país, o meio rural português já não
retém os seus jovens, que preferem a
cidade à aldeia e os empregos assalariados
nos serviços à exploração de uma quinta
ou a uma actividade artesanal independente.
Contrariando esta tendência, toda uma
categoria de antigos urbanos - portugueses,
mas sobretudo norte-europeus - encontraram
o seu “lugar ao sol” no interior de certas
regiões, constituindo uma verdadeira
reocupação rural. Encontro com os
empresários (neo-)rurais das zonas LEADER
Entre Lousã e Zêzere (Centro) e Sudoeste
(Algarve/Alentejo).


“Não podemos nunca partir e deixar a aldeia, sem vigilância, por causa do vandalismo”, lamenta Kerstin Thomas. Com o marido e dois filhos, de oito e quatro anos, são os únicos habitantes de Cerdeira, aldeia perdida no extremo de um caminho de terra nas alturas da Serra da Lousã, no centro de Portugal. “Estudávamos português em Coimbra quando descobrimos esta aldeia abandonada e decidimos instalar-nos aqui. Conseguimos comprar quatro casas.” Oriundo da região de Kassel, Alemanha, o casal pretendia fazer uma vida perto da natureza, “trabalhar em casa, ter tempo para viver, não correr mais... Aqui, não tenho a impressão de ‘largar’ as crianças na escola para não chegar tarde ao emprego”. E o de Kerstin e do marido é, antes de mais, a escultura em madeira. Mas é também o aluguer de quartos de hóspedes aos fins de semana. Nenhuma ajuda de qualquer tipo facilitou a sua instalação em 1986, mas, alguns anos mais tarde, sob pressão da autarquia de que depende Cerdeira, o Instituto da Juventude arranjou gratuitamente os acessos e as ruelas da aldeia. Depois, a maioria das casas foram sendo adquiridas por habitantes de Coimbra ou de Lisboa, que delas fizeram residências secundárias. Hoje, Cerdeira e as outras aldeias abandonadas da região quase se tornaram locais de residência estival “chiques”, conhecidos em todo o país.

Crédito

Desde a sua entrada na zona Euro, Portugal instalou-se definitivamente na sociedade de consumo. “Durante muito tempo informal, a economia rural começou por tornar-se monetarizada, e agora as pessoas descobriram o crédito em força...”, explica Andreas Apitz, natural de Hamburgo e instalado na Serra desde 1987. “As letras dos grandes carros 4x4, que compraram a crédito, têm de ser pagas... Então, as pessoas procuram um emprego assalariado, e relativamente bem remunerado, o que não se encontra aqui.”
Andreas e Iris Apitz seleccionaram a Serra da Lousã quase cientificamente: “Escolhemos Portugal porque achámos que era o país do Sul mais aberto aos estrangeiros. Depois, examinámos com todo o pormenor o mapa de Portugal e optámos pelo centro geográfico do país. O Algarve pareceu-nos demasiado quente, o Norte demasiado chuvoso... Aqui, pareceu-nos ideal e, de facto, vivemos no meio de lindas e pequenas serras arborizadas, pouco distantes de um mar frio, e por isso pouco turístico, com ventos de Oeste dominantes que nos protegem da poluição atmosférica.”
Doze anos mais tarde, estará a realidade à altura das expectativas? “De uma maneira geral, sim, responde Andreas, embora possamos lamentar a falta de consciência ambiental - nomeadamente, em matéria de gestão de detritos -, uma administração muito burocratizada e um certo desprezo das pessoas pela sua história local recente - associado às carências, e até à pobreza -, mas Portugal evolui ao seu ritmo, como o fizeram os países mais ricos. Anseio, porém, para que saiamos desta fase um pouco idiota, em que consumir parece ser a única preocupação...”
Tal como Kerstin, Andreas faz parte destes norte-europeus marcados pelos anos 60-70 e que escolheram Portugal por ideal cultural (uma sociedade rural “autêntica”), político (a Revolução dos Cravos em 1974) ou socioeconómico. Manfred Markl, 45 anos, define-se como proveniente do meio “alternativo” de Nuremberga: “entre 1974 e 1981, formámos uma comunidade autónoma de várias centenas de pessoas no centro da cidade. Eu era garagista... E depois os promotores imobiliários invadiram o bairro e foi preciso encontrar outro local para viver. Sentia necessidade do campo, mas para isso estava fora de questão continuar na Alemanha, onde as terras têm preços muito altos. Em França e em Espanha, era quase a mesma coisa... Então, lá bem no extremo da Europa, já só restava Portugal.” Em 1984, comprou uma quinta de 1,5 ha em Pedrógão Grande e seguiu uma formação em produção de queijos, “Aprendi muito também a trabalhar com as pessoas: toda a aldeia vivia ainda da agricultura nessa época.” Os anos passaram e Manfred tornou-se o único agricultor que sobrevive na sua aldeia. Com as suas 60 cabras, é também o único produtor de queijo em toda esta zona LEADER. “Não existe tradição de fabricar queijo nesta Serra,” explica Maria Marques, directora do GAL Entre Lousã e Zêzere, “a actividade do Markl é uma inovação que é preciso apoiar a todo o custo.” Resultado: o LEADER vai financiar em breve 65% dos 30.000 euros necessários a Manfred para construir e equipar uma pequena queijaria mais eficaz que a actual. “A grande maioria dos projectos que apoiamos são colectivos,” insiste em explicar Ana Souto, agente de desenvolvimento. “Os neo-rurais são muitos na Serra, mas não são para nós uma categoria específica de actores, e muito menos a privilegiar. Integram-se, na sua maioria discretamente, na sociedade local e nas redes socio-profissionais do território. Muitos são artesãos, por exemplo, e é a esse título que poderão beneficiar de uma acção LEADER.”

Inovadores

Deixemos a Serra da Lousã pela Serra de Monchique, 400km mais a Sul, no limite do Algarve e do Alentejo. “Na generalidade, temos aqui dois tipos de estrangeiros”, resume Gordon Sillence, sociólogo inglês chegado a Portugal há uns 10 anos e co-fundador do Instituto Português de Ecologia (INPECO) em 1996. “Além do grupo dos reformados, muito clássico nas regiões soalheiras, há os ‘empresários’: contrariamente ao que se passa frequentemente no País de Gales ou na Irlanda, as pessoas que se instalam aqui não são forçosamente marginais, que fogem a qualquer custo do sistema urbano. São muitas vezes, mais por temperamento até que por necessidade, empresários que consideraram o seu país de origem inadequado para a realização do seu projecto. Quase sempre inovadores, constituem um formidável recurso para o desenvolvimento local, recurso que infelizmente está, de uma forma geral, insuficientemente explorado...”
“Não estou de acordo com esta última afirmação”, contesta Carlos Albano, agente de desenvolvimento LEADER na Serra de Monchique. E explica: “aqui, os primeiros promotores de projectos LEADER em 1997 eram todos estrangeiros: tu, Gordon, para a produção de um guia topográfico da zona, e Amanda Twohig, que é irlandesa e recebeu um financiamento de 13.000 euros, para a sua empresa de compotas biológicas.”
“Nós não temos uma estratégia que vise especificamente as novas populações; temos uma estratégia global, mas acontece que trabalhamos em grande parte com novas populações”, insiste Pedro Dornellas, coordenador da associação de desenvolvimento “Vicentina” que gere o Programa LEADER Sudoeste. “Grande parte dos habitantes desta zona de Portugal vêm de fora - eu próprio e alguns colegas crescemos em Moçambique, o presidente da associação, Joaquim Marreiros, é casado com uma holandesa, etc. - e, por isso, matematicamente falando, muitos promotores de projecto aqui são ‘estrangeiros’. Tanto mais que retomam frequentemente actividades que os portugueses já não querem e que são precisamente os sectores que nós apoiamos: agricultura e artesanato...”
A associação Vicentina/LEADER Sudoeste intervém na parte ocidental do Algarve (o Barlavento), do lado do Cabo de S. Vicente, extremidade Sudoeste da Europa. A Norte de uma estreita faixa litoral hiper-turística (4 milhões de visitantes por ano), literalmente “cimentada” desde Lagos até Faro, estende-se - até à Serra de Monchique e a outras serras que formam o limite entre o Algarve e o Alentejo - um espaço muito pouco povoado (apenas 6 hab./km2 em certos sítios) que, hoje estaria quase deserto sem os “neo-rurais”.

Vizinhos

“Uma velha senhora já me disse: ‘não quero saber a nacionalidade dos meus vizinhos, o que eu quero é ter vizinhos’” conta-nos Fernanda Silva, responsável LEADER, “a costa ‘aspirou’ todos os jovens deste território...” E cita então, como exemplo, a Freguesia de Barão de São João, onde as jovens famílias são quase todas inglesas, alemãs, holandesas ou suíças, e a escola primária conta 19 crianças estrangeiras para 3 crianças portuguesas. “Os estrangeiros permitiram a manutenção da escola, do correio, de vários cafés e de cinco mercearias, uma destas oferecendo uma gama de produtos biológicos mais extensa do que em Lisboa”, afirma Fernanda.
Niels Rump e Marielle Demenga (36 anos) fazem parte das “forças vivas” de Barão de São João. Oriundos de Genebra, trabalharam para organizações de desenvolvimento no Terceiro Mundo antes de se fixarem em Portugal, em 1989, comprando 4 ha de terras, no meio de parte alguma. Para subsistirem, estes agrobiólogos qualificados decidiram lançar-se na agricultura “biológica, com certeza! Seria inconcebível para nós praticar qualquer outra forma de agricultura.” A composição de um “ragú de legumes de Natal” tornou-se o fio condutor que os levou a elaborar a sua gama de produtos e a encontrar a sua fileira: “tomates, cebolas, corgetes, beringelas, pimentos, feijões... em suma, todos os legumes e frutos que amadurecem aqui quando termina a época em França”, indica Niels. Em 1992, uma ajuda europeia permitiu-lhe trocar os seus pequenos túneis por grandes estufas, o que os obrigou, um pouco contrariados, a passarem à velocidade superior: “1 ha de estufas é muito. Teríamos preferido um projecto mais pequeno, para crescer ao nosso ritmo, mas era pegar ou largar por causa do subsídio...”. Quanto ao LEADER, esta Iniciativa Comunitária apoiou metade dos 17.500 euros necessários para a aquisição de uma máquina de limpar e calibrar os frutos e legumes. Além de Niels e Marielle, a quinta ocupa quatro empregados permanentes. Apenas 1% da produção é escoada no mercado local (o sector turístico do Algarve é pouco consumidor de alimentos biológicos), 60% da produção é exportada (para o Reino Unido e a Alemanha) e 39% é vendida em vários supermercados em Portugal. Para melhor poder negociar os preços com estes últimos, Niels contribuiu para a fundação em 1995 de “Urze”, uma associação de 22 produtores biológicos, distribuídos por todo o território português.

“DistriBIO”

Eric Balans, um Francês, e a sua esposa Alexandra, nascida em Moçambique, fundaram há alguns anos a sociedade “DistriBIO”, que entrega semanalmente ao domicílio cabazes de produtos biológicos, a cinquenta clientes e num raio de 200 km. “Para tornar operacional esta fórmula,” explica Eric, “inspirámo-nos numa experiência de inserção de desempregados em Trièves, França. A volta precisa de cerca de três dias e meio. Cada cabaz contém entre 8 a 10 produtos diferentes. Os capazes são compostos conforme as estações; os clientes - 50% portugueses, 50% estrangeiros - nunca sabem exactamente o que vão receber.”
Beneficiária de um co-financiamento LEADER para equipamento de embalagem, DistriBIO trabalha, entre outros, com Niels e Marielle.
“Têm-se constituído redes de neo-rurais, sobretudo em função da língua e do sector de actividade”, sublinha Eric. A produção biológica, a ecologia e as energias alternativas tecem laços poderosos: Amanda Twohig, por exemplo, vende as suas compotas biológicas, entre outros lugares, na loja de produtos naturais de Vera Diesselbrede, em Aljezur. Ora, o companheiro de Vera, Franz Wagner, é ele próprio um empresário-inovador na região. Originário de Neuss, perto de Dusseldórfia, abriu em 1979 um restaurante no Algarve. Mas, tal como os demais neo-rurais que se instalaram nessa época, viu-se confrontado com a falta de electricidade. Obrigado a fabricá-la, descobriu uma paixão pelas energias alternativas e criou, com dois compatriotas, a sociedade “Sistemas de Energias Alternativas Portugal Lda.” que se tornou líder nacional na montagem e instalação de equipamentos solares e eólicos.
“Crescemos entre 20 e 30% por ano, anuncia orgulhosamente Franz. Temos 8 empregados permanentes e 80 revendedores espalhados pelo mundo. Os nossos clientes são 60% particulares e 40% colectividades.
Temos participado em vários programas europeus - JOULE, THERMIE - e actualmente cooperamos com a Escola de Minas de Paris num projecto COPERNICUS no Usbequistão”.
Os sistemas de Franz Wagner e os enormes esforços desenvolvidos por Portugal, que electrificou os seus campos há já alguns anos, resolveram o grande problema que enfrentavam os recém-chegados há uma dezena de anos atrás. Mas… e a água, “sem a qual - recorda Fernanda Silva - nenhum desenvolvimento rural é possível “, e que falta por vezes, como constataram, à sua custa, José e Sabine Sousa?

Mão-de-obra

José é um “africano” (*) de Moçambique; Sabine, uma alemã de Eutin no Schleswig-Holstein. Ceramistas, possuem uma loja de cerâmica e outros objectos em terra-cota, em Lagos. Em 1995, adquiriram 8 ha de terrenos incultos no interior. O sítio é completamente deserto, mas tem a particularidade de oferecer uma vista simultânea sobre a costa Oeste (“Costa Vicentina”) e a costa Sul do Algarve. Construíram aqui a sua casa e, com a ajuda do LEADER, uma vasta oficina (50.000 euros). Mas não tiveram sorte: o reservatório que devia alimentar a propriedade em água era insuficiente, tornando-se necessário fazer um furo, o que aumentou muito substancialmente os custos do empreendimento.
“Pouco a pouco, fomos solucionando os problemas das infra- estruturas”, relembra José, do alto da sua colina sobranceira deste finisterra da Europa. “Estamos orgulhosos ao pensar que, além de nós, mais duas famílias vivem da nossa empresa... Porque, como sabem, a principal dificuldade é encontrar mão-de-obra e conservá- la. Uma caixa do supermercado onde fazemos as nossas compras já fez uma formação connosco mas preferiu esse emprego de caixa, que é aqui muito mais prestigiado do que a cerâmica.”
Todos os empresários com quem falámos lamentam esta falta de mão-de- obra: “a mutação acelerada da sociedade portuguesa desvaloriza as actividades tradicionais, entendidas como antiquadas, sujas e não rendíveis”, observa Sabine. Deveria, contudo, ponderar a sua análise: José não era ceramista antes de a conhecer, mas funcionário do Ministério das Finanças! “Pedi uma licença sem vencimento... por toda a vida”, afirma ele.



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Comentários

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