Quando a comida mata

Já nem os vegetarianos se safam...



A comida mata mais pessoas do que a sida e o grande drama é que a maior parte dos agentes causadores dessas mortes são gerados conscientemente em modernas explorações agrícolas


A morte de 31 pessoas na Europa devido a uma estirpe pouco conhecida de E. Coli fez disparar os alarmes em todo o mundo, mas não devemos ficar surpreendidos. A comida trai-nos com frequência.

Todos os anos, nos Estados Unidos, 325 mil pessoas são hospitalizadas por causa de doenças relacionadas com os alimentos e cinco mil morrem, segundo os Centros para o Controlo e Prevenção de Doenças. É verdade: a comida mata uma pessoa a cada duas horas.

Porém, enquanto os ataques terroristas de 2001 levaram-nos a transformar a maneira como abordamos a segurança nacional, a morte todos os anos de quase o dobro das pessoas ainda não levou a que se adoptassem iniciativas de segurança alimentar básica. Temos um sistema agrícola industrializado que é uma maravilha a produzir comida barata, mas os seus lobistas bloqueiam as iniciativas destinadas a tornar os alimentos mais seguros.

Talvez o aspecto mais deplorável do nosso sistema agrícola - digo isto como um rapaz do campo do Ohio que criou ovelhas, vacas e porcos - é a forma como animais saudáveis são imprudentemente enchidos com antibióticos para crescerem mais depressa.

A Food and Drug Administration informou recentemente que 80 por cento dos antibióticos nos Estados Unidos destinam-se ao gado, não a humanos. E 90 por cento dos antibióticos para o gado são administrados na comida e na água, normalmente a animais saudáveis para prevenir que fiquem doentes quando estão confinados em condições insalubres e de sobrelotação.

Esta utilização arrogante de antibióticos de baixo nível cria o terreno perfeito para a reprodução de patogénicos resistentes a antibióticos. O resultado é que as doenças podem tornar-se intratáveis.

A Sociedade de Doenças Infecciosas da América, uma organização profissional de médicos, cita o caso de Josh Nahum, instrutor de skydiving no Colorado, que desenvolveu uma febre a partir de uma bactéria que não respondia à medicação. A infecção alastrou e causou uma pressão tremenda no crânio.

Parte do cérebro foi empurrado para a coluna vertebral, paralisando-o. Ficou quadraplégico, dependendo de um ventilador para respirar. Poucos anos depois, morreu.

Não existem motivos específicos para ligar o caso de Nahum ao uso excessivo de antibióticos na agricultura, já que a resistência aos antibióticos tem diversas causas que são difíceis de deslindar. Os médicos receitam-nos exageradamente. Os doentes utilizam-nos mal. Mas, se olharmos para os números, a agricultura é, de longe, onde o uso é mais excessivo.

Nunca pensaríamos em tentar manter as nossas crianças saudáveis acrescentando antibióticos às fontes de água nas escolas, porque sabemos que isso iria produzir bactérias resistentes aos antibióticos. É de uma grande inconsciência que as grandes empresas agrícolas façam algo semelhante com o gado.

Louise Slaughter, a única microbióloga no Congresso dos Estados Unidos, tem travado uma batalha solitária para deter esta prática - mas os interesses da indústria agrícola conseguiram sempre bloquear a sua legislação.

Os vegetarianos podem achar que estão imunes, mas não estão. A E. Coli tem origem nos animais mas pode atingir a água utilizada para irrigar vegetais, contaminando-os. O surto de E. Coli na Europa teve, aparentemente, origem em rebentos de soja cultivados numa quinta biológica na Alemanha.

Um dos patogénicos resistentes a antibióticos mais comuns é a meticilina (MRSA), que mata hoje mais americanos anualmente do que a sida e aumenta brutalmente os custos com saúde nos Estados Unidos. A meticilina tem muitas variantes e uma das mais benignas está hoje espalhada em explorações pecuárias e entre as pessoas que lidam com porcos. Um artigo publicado este ano num jornal chamado Applied and Environmental Microbiology relata que foi encontrada meticilina em 70 por cento dos porcos de uma única exploração.

Outro jornal académico informa que foi encontrada meticilina em 45 por cento dos trabalhadores de explorações pecuárias. E os Centros para o Controlo de Doenças relataram em Abril último que esta estirpe da bactéria foi encontrada num funcionário de um centro de dia no Iowa.

Outros países estão a tomar medidas para banir o uso de antibióticos no gado. Mas nos Estados Unidos, o lóbi da indústria agrícola ainda tem grande influência no Congresso.

O surto na Europa devia abanar as pessoas. "É sinal da falência de todo um sistema", nota Robert Martin, do Pew Environment Group.

Necessitamos de inspecções mais abrangentes ao sistema alimentar, de mais testes a novas estirpes deE. Coli e mais educação do público (lave sempre as mãos depois de estar em contacto com carne crua e não use a mesma tábua para cortar carne e vegetais). Uma boa maneira de começar as reformas seria banir a utilização de antibióticos em animais saudáveis.



por Nicholas Kristof,
Jornal i/The New York Times

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