Quinta com vista sobre a cidade




É um pedaço de campo no coração de betão de Lisboa. Catarina Figueira andou no meio de um campo de cereais e fez um espantalho na Quinta do Zé Pinto. E agora só pensa em mudar-se para o campo.

Vive encalacrada entre os prédios altos de Sete Rios, os prédios baixos de Campolide e uma via rápida sempre a debitar carros nos dois sentidos. A Quinta do Zé Pinto é uma espécie de casa de campo com vista sobre a cidade, erguida a pensar sobretudo nas escolas (desde Setembro já passaram por ali 6000 crianças) mas que pelo menos um fim-de-semana por mês abre as portas às famílias alfacinhas que por algumas horas quiserem fazer de conta que não vivem numa cidade de betão.

Os impulsionadores do projecto, a Associação Nacional de Produtores de Cereais, aproveitaram um campo baldio recuperado pela Câmara de Lisboa e nele semearam, para além do trigo, do centeio, da aveia e da cevada, um projecto educativo que tem dado os seus frutos. Os girassóis plantados pela autarquia (que no ano passado tanta curiosidade despertaram aos automobilistas, aos transeuntes) deram lugar a um campo de cereais, uma horta, um picadeiro e um espaço onde se contam histórias.
Os monitores de serviço guiam miúdos e graúdos pela quinta e explicam o ciclo de vida do cereal, desde a semente ao momento em que aparece nos nossos pratos. “Então mas os cereais que eu como ao pequeno--almoço não nascem nas caixas de cartão que a mãe compra no supermercado?”. Aqui as crianças aprendem ao vivo e a cores que não. Conhecem as máquinas que se usam na lavoura, como a alfaia e a grade de discos, ajudam a moer o grão acabado de apanhar e transformam-no em farinha, ouvem falar de profissões que a maioria desconhece, como a ceifeira ou a enfardadeira. Na horta, uma nova descoberta: não, as alfaces não crescem nas árvores. Vêm da terra, como explica a Tia Alice, responsável por manter de boa saúde as leguminosas e as cenouras, mas também as roseiras e os malmequeres. A visita à quinta exige os sentidos bem apurados: sobretudo do tacto, para sentir a textura dos vários cereais cujas sementes estão divididas em vários saquinhos de serapilheira, e do olfacto, para inspirar fundo e sentir o aroma dos coentros, da alfazema, dos orégãos e do tomilho.
Os donos da quinta acreditam que a passagem por um espaço como este pode semear nos miúdos o respeito pela natureza. A prova de que não estão errados é que a Quinta do Zé Pinto foi seleccionada como Experiência Educadora pela Comissão Científica das Cidades Educadoras por contribuir para um melhor ambiente na cidade e para a sua educação e desenvolvimento sustentável.
A boa notícia é que ainda vai a tempo de apanhar o fim-de-semana aberto deste mês. Este sábado, a partir das 10.00, miúdos e graúdos são convidados a conhecer o imenso campo de cereais e a horta e a construir um espantalho a partir de materiais do quotidiano, que assim ganham uma nova vida ecológica. A estas três actividades já rotineiras dos dias de semana junta--se uma novidade: quatro burros da Reserva da Serra de Sintra que as crianças vão poder cuidar, mimar e montar. Convém não esquecer a toalha de piquenique em casa porque quem quiser pode almoçar por ali um delicioso hambúrguer de carne alentejana grelhado no momento.



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