Verde, por dentro e por fora

descrição


O Eco-hotel de Palmaz, em Oliveira de Azeméis, é o primeiro do país que, tendo a dimensão limite para ainda ser considerado uma unidade rural, funciona integralmente com energias renováveis. Um oásis?


Se Palmaz fosse um deserto, o Hotel Rural Vale do Rio seria um oásis. E quer esta seja a mais apropriada das comparações ou nem por isso, o facto é que o primeiro hotel rural de grande dimensão a funcionar integralmente à base de energias renováveis consegue, logo à primeira vista, surtir o efeito de surpresa e conforto que a imagem de um refúgio no Sara representaria para caminhantes sedentos.

A sensação começa a preparar-se na viagem. Tanto a partir do Porto como de Aveiro, o trajecto é fácil, mas, a certa altura, ter-se-á que circular obrigatoriamente pela EN1/IC2 e a paisagem é, no mínimo, desengraçada. Quando se corta no Pinheiro da Bemposta para os últimos quilómetros do percurso, o horizonte não melhora: a rua é de curvinhas apertadas, com má visibilidade, e o caminho não augura nada de interessante, tão descaracterizado que é o povoado, sem nada que lembre o encanto pitoresco das aldeias de xisto que estão mais no fim do mundo, mas sempre proporcionam postais bonitos.

É quando começam a aparecer as primeiras placas a indicar "hotel" que se percebe que, afinal, alguma coisa está para mudar. A pouco e pouco, a paisagem passa a ser apenas de verde intenso, a folhagem das árvores cobre o pedaço de céu sobre o asfalto e o ar nota-se mais frio, mais aberto. Se se chega de noite, consegue-se descortinar, numa cota inferior, os jardins do hotel cravejados de candeeiros que fazem lembrar as festas de praia nocturnas iluminadas por fogueiras. Se se chega de dia, o hotel revela-se de repente numa clareira em que, logo à entrada dos portões, se nota que, afinal, ser ecológico não obriga a que se prescinda da sofisticação.

E é então que o viajante pode repousar - entre o verde, entre o chilreio dos pássaros, entre o barulho das águas, não se sabe bem onde, mas por ali perto. No jardim bem tratado há sombras de árvores centenárias e recantos almofadados para incentivo à leitura ou à indolência, e quando se vai em busca do rio descobre-se que ele se desenha lá em baixo, junto ao Restaurante HC, cujo nome é emprestado da Hídrica do Caima - ela continua lá no edifício, a funcionar permanentemente para abastecer o hotel de electricidade.

Na esplanada em tons de madeira, a fotografia volta a surpreender: o mérito de Palmaz é mesmo esse verde de ramagens preenchidas, e, se é um facto que a extensa e surpreendente ementa do restaurante do hotel intensifica a estadia junto ao rio, também é verdade que, a partir do quarto, esse envolvimento visual ganha uma nova dimensão.

A directora do Hotel Rural Vale do Rio, Rita Alves, começa por explicar: "Dividimos os 30 quartos por conceitos de decoração diferente, cada um adequado a um dos quatro elementos presentes na natureza. É uma filosofia que se enquadra na política ecológica do hotel e, ao mesmo tempo, permite o uso de uma paleta de tons adequada à tranquilidade e ao sossego."

A oferta da unidade inclui uma suite, quatro quartos comunicantes, um outro que está adaptado a hóspedes com mobilidade reduzida e, depois, vários quartos individuais, todos eles espaçosos e todos eles com uma varanda larga e cheia de potencial - para o pequeno-almoço, para banhos de sol, para namorar com uma privacidade que só não será absoluta aos olhos de quem tiver subido ao alto dos pinheiros. A parede de fundo do quarto (do 205, pelo menos) é, afinal, uma enorme janela da qual nos apercebemos verdadeiramente do contexto em que estamos: tudo o que se vê a partir da cama é árvores e céu, sem um único indício da presença humana. Não há casas à vista, não há carros, não há postes de electricidade com fios a perturbarem o azul; há apenas as cores do arvoredo, as vozes de pássaros, o correr das águas e, na madrugada ainda escura, a experiência quase mística das badaladas do sino da capela, a acordarem ouvidos sensíveis para uma oração a Maria que se repercute, estranha, nos primeiros ares da manhã.



Via:Fugas

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