A “Reforma Agrária” em Bruxelas




Em Bruxelas, capital não oficial da União Europeia, existe um conjunto de hortas em pleno tecido urbano criado por portugueses nos anos 60 do século passado. Batizada de "Reforma Agrária", as hortas são hoje mantidas por portugueses, mas também por uma série de agricultores de fins de dia e de semana de outras nacionalidades, numa verdadeira Política Agrícola Comum. Em tempos de crise as hortas ajudam e reforçam os laços com a terra, a dos alimentos e a das raízes.

A 15 minutos do centro de Bruxelas, duração de viagem de metro entre Sainte-Catherine e La Roue, fica Anderlecht. Esta zona, conhecida por albergar um dos mais famosos clubes do futebol belga, é bastante diferente dos locais de Bruxelas que figuram nos postais e nos souvenirs. Aqui não há a grandiosidade da Grand Place e dos seus edifícios neogóticos, nem os magotes de turistas para tirarem fotografias ao miúdo que urina, o Manneken Pis, nem, tampouco, os mais variados executivos europeus que circulam em torno dos edifícios da Comissão Europeia (o Berlaymont) ou do Conselho Europeu (o Justus Lipsius). Por estas bandas são os edifícios de dois, três andares, de pequenos tijolos avermelhados e conjugados com betão, que pintam as ruas e enchem a paisagem; são as mulheres com sacos de compras enquanto esperam, pacientemente, que se faça luz verde nos semáforos de peões que preenchem os passeios; e são muitos os imigrantes que tentam levar vidas melhores do que levariam em Portugal ou nos seus países de origem.

route de Lennik, para quem chega e a observa pela primeira vez, serve de fronteira entre o campo e a cidade em Anderlecht, Bruxelas. De um lado da rua, casas, moradias, um parque de autocarros; do outro, o verde, da copa das árvores, dos campos de futebol, o verde do que vai nascendo da terra semeada por alentejanos de Aljustrel. Um pequeno portão, aberto a maior parte das vezes, convida a entrar. A vedação de madeira, impecavelmente disposta em torno das pequenas hortas, marca o terreno. O terreno, que outrora foi um baldio, e que é agora um conjunto de pequenas hortas, quase tão bem representativas da Europa dos 27 quanto o Parlamento Europeu o é. Manuel Teixeira, mais conhecido por Ruço, é o português que tem uma horta há mais tempo na "Reforma Agrária", já lá vão 35 anos, e que ainda continua a semeá-la. "Eu não fui dos primeiros, já aqui estavam cinco portugueses e eu fui o último a chegar. Mais tarde eles tiveram a reforma e eu fiquei aqui sozinho". Manuel é natural de Aljustrel, terra que lhe marca o andamento da vida e onde tem que voltar de tempos a tempos, apesar de não pensar em voltar definitivamente. Sente-se bem na Bélgica, onde tem a mulher, os filhos e os netos. A "Reforma Agrária" portuguesa em Bruxelas foi o mote, aquando da visita de António Afonso Bernardino, poeta popular de Aljustrel, mais conhecido por "Bagacinha", de uma poesia. Publicada no livro Descalço – Poesia Popular, de 1995, o autor mostra-se admirado com a qualidade dos meios e dos produtos cultivados em solo belga, nunca tendo visto "algo igual".

A história da "Reforma Agrária", a das hortas e não a das expropriações de terrenos no Alentejo e Ribatejo, começa por volta de 1967. Do grupo inicial de portugueses que começou a semear em terrenos belgas, todo ele constituído por homens de Aljustrel, Acácio Barão, de 75 anos, foi o primeiro de todos. Apesar de ainda não se ter desligado do país que o acolheu mais de 40 anos, divide agora o seu tempo entre cá e lá. "O início das hortas foi em 67. Eu costumava passear por ali e via alguns belgas a trabalhar nas suas hortas. Como eu gostava daquilo, certa vez perguntei a um gendarme, uma espécie de guarda-republicano, se eu também podia começar a semear um bocadinho de terreno. Ele disse-me que não era possível e a coisa ficou assim. Mas tantas vezes eu passava por ali, tantas vezes lá ia, que a certa altura um dos belgas que tinha lá horta deu-me um bocado do terreno dele". A partir deste momento, Acácio, homem criado no monte Ruas, junto a Aljustrel, homem que teve no campo os princípios da sua vida, habituado a trabalhar na terra, por fora e por dentro, já que havia sido mineiro em Portugal e na Bélgica, nas minas de carvão, começou a cultivar um pedaço de terra. E a seguir outro. E depois outro. E com isto, começou a convencer os conterrâneos a cultivarem também, dando-lhes partes dos terrenos cultivados por si.

Manuel Teixeira foi um desses homens. E o que por lá se mantém. Outros voltaram, como Acácio, e outros já morreram. Mas o espírito da "Reforma Agrária", nome criado por brincadeira, entre um copo e outro, num café próximo das hortas, ainda se vai mantendo, nem que seja no contentamento que transparece nos olhos de Manuel, quando fala da horta, do que semeia e dos momentos que lá passa, apesar das chamadas de atenção constantes da mulher para ter mais calma com o trabalho, para não se esforçar tanto. "Aqui semeamos de tudo: ervilhas, favas, courgettes, tomates, abóboras, feijão, batatas, cebolas, morangos. Tudo". Os terrenos, onde hoje se mantém a "Reforma Agrária", estavam abandonados e, apesar de pertencerem à câmara municipal local, a comuna, os pequenos agricultores não pagam nada pelo usufruto dos mesmos. Manuel Teixeira recorda como era diferente no início. "A bem dizer não estava aqui nada. Os primeiros que aqui chegaram é que começaram aqui a cavar isto tudo, a vedar. Como trabalhavam todos juntos, começaram a puxar uns pelos outros para vir semear estas terras. Mais tarde disseram-me a mim. Mas isto era pouco. Era um pedacinho de terreno para todos".

Ainda são muitos os que vão mantendo o cultivo nos terrenos. Entre portugueses, espanhóis, belgas e italianos, a "Reforma Agrária" é uma verdadeira roda-viva. Quando alguém se vai embora, há sempre outro alguém que vem e ocupa o terreno deixado vago. No entanto, e apesar de não haver terrenos livres, Manuel Teixeira prevê que o futuro acabará com as hortas. Ou a câmara. "Mais tarde isto é capaz de acabar. A câmara há de derrubar isto tudo e construir aqui casas. Até já tiveram um projeto para aqui. O futuro é acabar".

Carlos Alberto Cavaco, de 52 anos, também ele aljustrelense e pasteleiro de profissão, é outro dos portugueses que tem uma horta na "Reforma Agrária", há 12 anos. Se a crise, por um lado, faz com que haja pessoas a cultivarem, porque sempre é qualquer coisa que levam para casa para comer, é a mesma crise que vai permitir a sobrevivência das hortas. "A câmara quer construir aqui casas, mas não tem dinheiro para avançar com isso", assegura com ar satisfeito, como que disfarçando o que realmente pensa.



Quando a terra os aproxima da terra A história de Carlos Alberto Cavaco com as hortas é comum a tantas outras, mesmo sem ter alguma vez trabalhado na terra. "O meu colega Ruço é que me influenciou. Tinha um terreno livre, perguntou-me se eu estava interessado e eu avancei". Homem dos bolos, nunca se tinha aventurado a semear couves, batatas ou qualquer coisa que viesse da terra, mas talvez as raízes de agricultores de Aljustrel tivessem vindo ao de cima com a possibilidade de trabalhar a terra nos tempos livres. "Eu gosto disto. Via o meu pai fazer e o Ruço é que me ensinou, dava- -me uma ajuda". O futuro das hortas é uma incógnita, mas Carlos lá vai desvendando o que realmente lhe vai na alma: "Daqui a dois ou três anos vai acabar tudo". E a mesma crise que antes poderia salvar os pequenos terrenos agrícolas, poderá, afinal, ser a sua condenação. "Já começaram a construir aqui à volta. Querem fazer casas sociais para as pessoas mais pobres, como os alugueres são caros e com a crise".

No local onde é a "Reforma Agrária" chegaram a estar sete portugueses de Aljustrel. Hoje estão dois. Os cinco restantes voltaram para a vila mineira, onde três deles já morreram. Mas as marcas dos que começaram as hortas continuam por lá, passando de mão em mão, as mesmas mãos que semeiam e cultivam a terra. A barraca de Manuel Teixeira foi feita por Acácio Baião, o irmão e outro aljustrelense. A mesma barraca onde Ruço se reúne com a família e os amigos, como Carlos, para "petiscos e almoçaradas", afinal de contas o grande objetivo que está por trás de tudo aquilo. E se a família se junta nos momentos de convívio, apenas Manuel e Carlos se dedicam ao cultivo. "Às vezes passamos uma semana difícil e aqui desanuviamos. Bebe-se um copo, convive-se e estamos no relax".

Muitos dos produtos que os últimos resistentes de Aljustrel levam para casa, criados em solo belga, são bem melhores do que aqueles que encontram no supermercado. Carlos não hesita: "Sabe tudo melhor e é mais biológico". "Mesmo que seja pouco, o gosto é outro". E se, dizem, é pelo estômago que se conquista um homem, é pelos sabores das origens, pelos paladares da memória, que é feita a aproximação às raízes de uma vida. "Com estes produtos até os comerezinhos alentejanos sabem melhor". Manuel Teixeira não pensa voltar a Portugal. Pelo menos definitivamente, já que passa três, quatro meses por ano em Aljustrel. "E enquanto não me puserem daqui para fora, daqui não saio, não deixo a horta, apesar de a minha mulher insistir para eu deixar, que isto me dá cabo do corpo".

E se a aproximação umbilical à terra natal é feita através dos alimentos, o clima é sempre algo que deixa os portugueses a suspirar. Em Bruxelas o tempo é tão instável que quase que se pode dizer que as quatro estações do ano podem acontecer num só dia. Não é bom para a criação de certos produtos, como os pêssegos, como também não o é para a alma portuguesa. Carlos não se importa com isso, enquanto suspira pelo sol abrasador do seu Alentejo. Quando este artigo sair já estará de férias em Portugal, pensando na pré­- -reforma, que pode acontecer daqui a três ou quatro anos, altura em que a "Reforma Agrária" ficará para trás.

Texto e fotos Marco Monteiro Cândido
Marco Monteiro Cândido representou oficialmente o "Diário do Alentejo" num seminário para jornalistas do Alentejo e Extremadura, entre 21 e 23 de junho, em Bruxelas, a convite do Parlamento Europeu.



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