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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Visita guiada às árvores de Lisboa

Em Lisboa há 65 árvores isoladas e 19 conjuntos de arvoredo classificados



Algumas são frondosas, outras despidas de folhagem. As silhuetas, ora esguias, ora barrigudas. Umas classificadas, outras não. Cada árvore veste um verde diferente, mas todas têm uma história para contar e uma sombra para oferecer.


Os nomes só são evidentes para quem os conhece como o biólogo Rui Pedro Lérias: a bela-sombra, a casuarina, o cedro-dos-himalaias, e também a figueira-benjamim, a erythrina, o cedro-do-buçaco (cipreste), a sumaúma e o metrosidero (árvores classificadas), o corinocarpo, o pinheiro-de-norfolk, a tamareira-das-canárias e o cipreste-de-montezuma (árvores não-classificadas). Quem não as conhece pelo nome, talvez as conheça pela vista, porque são árvores que se encontram por Lisboa.


Apenas a palmeira-das-vassouras, o pinheiro-manso e o teixo são de origem portuguesa. As exóticas "foram trazidas de todo o mundo e plantadas ao longo do século XIX e XX. A pouco a pouco, ganharam grande porte", diz Rui Pedro Lérias, que promove visitas guiadas às árvores de Lisboa.

Para Rui Lérias, a presença de arvoredo classificado em solo lisboeta é de interesse científico, didáctico, histórico, ambiental e paisagístico. O guia deseja que os cidadãos ganhem vontade de pedir a classificação de outras árvores. O engenheiro técnico da Autoridade Florestal Nacional (AFN) António Campos Andrada explica tratar-se de um processo muito simples: "Basta a pessoa enviar uma carta à AFN, comunicar-lhe a existência de uma árvore com características que considere excepcionais - como a raridade, a beleza, o porte, a idade - e que gostaria de vê-la classificada. São precisas fotografias e a localização da árvore em questão." A Direcção Regional de Florestas encaminhará os responsáveis ao local para analisarem a árvore, mas a decisão final cabe ao presidente da AFN. "Ultimamente, os pedidos vêem sobretudo de cidadãos e de câmaras municipais."

Entre as árvores classificadas de Lisboa, a AFN identifica 19 arvoredos (em Monsanto e no Jardim Nuno Álvares, em Santos, por exemplo), 65 árvores isoladas - propriedade da CML -, bem como outras seis de propriedade particular.

O biólogo sublinha, por isso, a importância da divulgação e da sensibilização: "Só existe um obstáculo à classificação de árvores: a desinformação ou a falta de vontade das pessoas em proteger uma determinada árvore."

Cristina Borges tem 49 anos, trabalha numa produtora de som, e veio à visita por curiosidade e embaraço: "Fico com vergonha de não saber os nomes das árvores. Sempre vivi em Lisboa, sei de cor os nomes das ruas, mas não conheço o nome das árvores. É como saber o nosso signo, mas não o grupo sanguíneo."

O antigo ministro das Finanças António Bagão Félix é um apaixonado pela natureza e encara as árvores como "companheiras cromáticas, de ciclo de vida" que "purificam o ar e trazem cor e bailado aos jardins e às ruas".

Para Pedro Teixeira da Mota, escritor e professor de meditação, o número de árvores classificadas em Lisboa é reduzido. Com pouco mais de 50 anos, Pedro Mota cataloga livros antigos para leilões e interessa-se por árvores. Esteve recentemente no Japão, onde se acredita que as árvores antigas tenham espírito (kami). Para ele, a árvore é a ligação entre o céu e a terra e consiste numa fonte de vida, de equilíbrio e de ensinamentos: "Impassível, ela tudo suporta. Ensina-nos o enraizamento e a perseverança."

Entre veneno e afrodite

A "lição" de Rui Lérias acontece no Jardim Braamcamp Freire, no Campo dos Mártires da Pátria, debaixo de duas belas-sombras. "Trata-se de uma árvore diónica, ou seja, os sexos feminino e masculino crescem em pés diferentes." Apesar dos nódulos grossos que marcam a base do tronco das árvores, a sua silhueta adelgaça em altura. A farta cabeleira verde pende do topo. As ramagens são como longos fios de cabelo florido, e oferecem uma larga sombra a quem por elas passa.

Mais adiante, num pequeno lago, os patos e os galos espiam a visita. Chapinham, grasnam e cantam, à medida que as pessoas se aproximam para conhecer a próxima árvore. "Aqui, temos um pinheiro-manso com cerca de 100 anos"- diz Rui Lérias, e destaca o pinhão como um fruto de grande rendimento económico. Dois teixos surgem mais adiante, no Jardim do Príncipe Real. Esta espécie "já foi mais comum em Portugal", informa o biólogo. "A casca do tronco, as folhas e as sementes matam, e por essa razão é apelidada de "mata-gado" por muitos pastores." Porém, tem igualmente o seu lado bom: "A madeira não verga, não quebra, e sob vapor ganha a flexibilidade ideal para a construção de arcos para flechas. Apesar de a pele da baga ser venenosa, o interior não é, de modo que os pássaros conseguem alimentar-se dela, bicando-a."

Outra espécie que se encontra em Lisboa é a barriguda sumaúma, árvore apreciada pela sua sombra e pelo fruto - uma vagem que dá um algodão muito requisitado para encher colchões e travesseiros. A sua madeira resiste à podridão e possui acúleos, um género de picos, que protegem o tronco e os ramos.

António Soares tem 48 anos e embarcou na visita guiada pela importância que dá à natureza. É mergulhador e interessa-se tanto pela flora subaquática como pela terrestre. Nasceu e cresceu numa quinta em Marco de Canaveses e aí aprendeu a respeitar a natureza. Defende que a educação ambiental tem de começar cedo, nas escolas, e já trabalhou na Casa Anos Verdes, em Monsanto, onde se ensinam crianças a cuidar de hortas: "Elas têm o hábito de mexer, de arrancar, e há que ensiná-los a lidar com flores, plantas e árvores".

Nuno Clode, médico, de 50 anos, veio à visita por achar que o património natural de Lisboa deve ser conhecido e valorizado. A essa razão Ana Cristina Figueiredo acrescenta a amizade que tem pelo guia. É jurista, tem 47 anos e elogia a facilidade com que este "partilha o conhecimento que tem e o carinho que nutre pelo património nacional e cultural."

O grupo é conduzido até um cedro-dos-himalaias, árvore sagrada e adorada pela população hindu e budista. O guia apressa-se a destacar que a sua madeira aromatizada, quando transformada em óleo, possui propriedades insecticidas, antifúngicas e afrodisíacas.

A natureza doméstica

A conservação de espaços verdes públicos é outro tema de conversa para os visitantes e, também, para Bagão Félix: "Custa-me reparar que há jardins desmazelados, onde, por entre canteiros, crescem ervas daninhas. Temos o clima ideal, fresco e húmido. Só nos falta praticar o culto do jardim."

A este respeito, o arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles constata que cada vez mais a "natureza viva" mora "fora das muralhas da cidade". Dentro delas, apenas existem resquícios de natureza, entre cimento, betão e alcatrão. Os "espaços verdes" passam a englobar, além da natureza, recreios e ciclovias. Ribeiro Telles insiste que o contrabalanço entre espaços inertes, inanimados, e espaços vivos, naturais, é indispensável. "Quando não há solo propício para determinada árvore ou planta, este solo deve e pode ser criado para albergar a natureza adequada." O líder da bancada do PSD, António Prôa, destaca no seu blogue as vantagens que as árvores oferecem à capital: além de servirem de abrigo e alimento a diversos animais, promovem a qualidade do ambiente, enriquecem o valor estético da cidade, e a sua sombra dá conforto. O grande problema, na perspectiva de Ribeiro Telles, deve-se ao crescimento das cidades, que muitas vezes atropela o "verde" na paisagem urbana.

A ânsia do homem urbano em ter acesso a paisagem viva pode levá-lo à compra de "natureza doméstica". É o caso de Bagão Félix, que nas horas vagas gosta de praticar jardinagem: "A nossa ecologia é de asfalto, de semáforos, de tubos de escape. É nos canteiros domésticos e nos jardins que as pessoas encontram instantes de purificação interior."

Bagão Félix destaca sítios em Lisboa onde é visível o protagonismo das árvores: a Avenida 5 de Outubro, "recheada de jacarandás", a Avenida da Liberdade e os jardins botânicos (na Ajuda, no Príncipe Real e em Belém). Como estas, outras árvores poderão conquistar os portugueses. É preciso é prestar-lhes atenção: "Faz-me confusão ver que as pessoas passam diante delas com indiferença, quando as árvores são para serem olhadas. Basta imaginarmo-nos numa cidade sem árvores. Seria um perfeito pesadelo."



Fonte: Público

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