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terça-feira, 27 de setembro de 2011

De volta ao campo

Quer passar um tempo diferente? Pague para pastorear cabras, produzir sal marinho, apanhar peras, tirar batatas, colher feijões. Nas zonas rurais não faltam trabalhos agrícolas revigorantes.
Cajado na mão, Branca sobe ligeira a serra de São Macário como se lhe conhecesse os perigos, sem temor. Ninguém diria que é apenas a terceira vez que leva o gado a pastar. Branca não é pastora, trabalha numa cadeia de lojas de roupa para crianças, no Porto, onde vive, e veio para Covas do Monte ajudar as pessoas desta aldeia nas actividades rurais. Hoje toma o gado até ao cimo da montanha com Ti Maria, ontem plantou couves e, antes, esteve a limpar um curral para utilizar o estrume como adubo, anteontem à noite fez enchidos. «Tchô carreira», grita Branca e grita Ti Maria para enxotar o gado e pô-lo no caminho.
Aqui, o rebanho é comunitário. Quem tem cabras leva-as à vez até à serra. Quanto mais cabras se tem, mais vezes se sobe. Ti Maria é dona de muitas cabeças, «umas setenta», o que a obriga a ir ao monte «duas vezes de 15 em 15 dias e três vezes por mês», o que dá qualquer coisa como cinco dias por mês. «Há dias em que os animais dão boa vida à gente», não se separam, ficam no rebanho, «mas há outros dias em que martirizam, temos de andar a juntá-los. Muitos perdem-se e passam a noite ao relento».
As cabras estão quase no alto. Eram 09h20 quando Ti Maria e Branca fizeram a chamada de aviso para os currais se abrirem: «Ó Lucinda, vai sair o gado», e Lucinda abriu o curral. «Ó Zé, vai sair o gado», e Zé abriu o curral. Assim, todos os dias, de casa em casa, pelas ruas estreitas e íngremes da aldeia, pavimentadas com a pedra negra da região. Em poucos minutos estavam cá fora «umas 1500 cabras» a correrem para o carreiro - no Inverno, o carreiro é um rio formado pelas águas das chuvas; no Verão é o acesso das cabras ao cume de São Macário. O percurso é difícil, cheio de «pedras abaladiças» que se movem quando calcadas, mas já não oferece perigo a quem o conhece. As pastoras avisaram: «Lá em cima é muito pior.» Quem tem carro poupa-se à parte mais agreste, levando o gado a pé até um certo ponto do carreiro, a partir do qual os animais seguem sozinhos e o pastor vai de carro, juntando-se aos animais lá em cima. Como Ti Maria não tem transporte, vai e volta a pé, com o gado: «Demoramos quatro horas a subir, ficamos três horas no monte à espera que os bichos comam, e depois são mais quatro horas a descer. É um dia só para dar comer aos bichos.»  Ler+ 

Via: Diário de Notícias


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