Hortas Urbanas

Hortas Urbanas



E se na hora de preparar a próxima refeição em vez de ir ao supermercado for à horta mesmo ao pé de casa ou na varanda?


Está uma manhã quente e a vista sobranceira de Lisboa é inspiradora. Um letreiro artesanal feito de tábuas de madeira com pinceladas de tinta assinala o local: “Esta horta é auto-gerida, comunitária, ecológica. Não tem pesticidas, químicos, transgénicos.” Mais adiante outro letreiro indica o caminho para o compostor, onde se podem depositar restos de cozinha e vegetais crus. Cheguei à Horta do Monte, sem dúvida um miradouro sobre a cidade. Nos cerca de 1200 metros quadrados de área nesta encosta entre a Graça e a Mouraria coexiste há quatro anos a permacultura e a ocupação individual de talhões.

Mas afinal o que é a permacultura? Em termos de técnica, é muito semelhante à agricultura biológica, com um funcionamento muito sustentável, pois não se usam fertilizantes químicos, nem pesticidas, mas diferencia-se nos resultados e na postura dos permacultores: “O mais importante é manter o espírito colectivo e de interajuda, trabalhar a terra de forma natural. Valorizamos mais a experiência do que o próprio produto”, explica Inês Clematis, animadora sociocultural e actual coordenadora voluntária da Horta do Monte, cuja estética não é de todo inspiradora como a vista da cidade à chegada. O terreno carece de ordenamento, sendo muitas as plantas que já crescem por geração espontânea: rúcula, acelga silvestre, couves, chagas, calêndula e todo o tipo de ervas de cheiro.

O aumento progressivo de hortas urbanas na capital, possivelmente resultado da crise económica, justifica um programa de incentivo à agricultura urbana e a criação de parques hortícolas em curso na Câmara Municipal de Lisboa (CML). Rita Folgosa, adjunta do vereador dos Espaços Verdes, José Sá Fernandes, explica: “A estratégia da CML é criar zonas verdes mais baratas, com custos baixos de manutenção, cuja responsabilidade é exclusiva do hortelão.” São dois os tipos de intervenção da autarquia: por um lado, reestruturar zonas já ocupadas há bastante tempo, dotá-las de infra-estruturas (água, caminhos, iluminação) e transformá-las, criando uma componente de parque urbano, de passeio e lazer. É o caso das Hortas da Graça (ou do Monte), Vale de Chelas e Quinta da Granja (Benfica). Por outro lado, estão a ser criadas novas hortas em zonas onde não existia nada, resultado do interesse da população e da disponibilidade de terreno. Os Jardins de Campolide e Telheiras, pela localização anexa a zonas verdes, são exemplos de que é possível associar um jardim à horticultura, e criar verdadeiros parques hortícolas de lazer. Isto mesmo já defendia o arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, nos anos 80.

Da tipologia das hortas urbanas previstas no projecto municipal fazem parte as sociais, integradas em bairros de habitação social ou carenciada onde se pratica uma agricultura de sustento, cuja venda de excedentes pode servir de complemento ao rendimento familiar. Outro tipo são as hortas pedagógicas, geridas por escolas ou associações de sensibilização ambiental. E, finalmente, as de recreio, que se destinam a quem quer divertir-se e aprender formas sustentáveis de se alimentar, com uma área mínima de 50 metros quadrados, onde é possível ter culturas interessantes de crescimento rápido: além das habituais ervas de cheiro (cebolinho, salsa, coentros), também alface, rabanetes e rúcula, o que já dá para uma salada de Verão bem saborosa.

Foi a descoberta pelo prazer de cozinhar e a vontade de mostrar à sobrinha de sete anos como a Natureza é generosa e retribui alimentos saudáveis que motivaram Marta Canário a fazer a sua horta doméstica, ali mesmo num canto da varanda do apartamento. “Decidi plantar sem recurso a aditivos e regar. O que tivesse de crescer, cresceria. Hoje tenho plantados morangos, alfaces, pimentos, malaguetas, tomates-cereja, couve-flor, beringela e rúcula. E lavanda para perfumar a casa!”, enumera a assessora de imprensa de 36 anos que, entre terra, vasos, sementes, um regador e borrifador, gastou perto de 50 euros. Também não é o factor económico que mais conta neste hobby, mas o prazer de ver crescer o que se semeou, sob o lema “água, luz, paciência e muito carinho”.

Cultivar para ter excedentes agrícolas é apenas um objectivo a longo prazo na perspectiva da coordenadora da Horta do Monte: “É a forma como chegamos aos excedentes que é importante. Ninguém aqui vai deixar de ir à mercearia.” Já para Graça Ribeiro, assessora na CML, orientadora das formações em Produção Biológica no Museu Nacional do Traje e hortelã desde sempre, o principal objectivo é que a terra lhe dê alimento. E será que a terra é exigente com o horticultor, consumindo-lhe muito tempo? No Verão é natural que o compromisso seja maior, pois é preciso regar todos os dias. Ainda assim, Graça Ribeiro alerta que “a horta não é uma prisão” – já existem técnicas na agricultura biológica que facilitam a manutenção e, além disso, “as plantas requerem assistência, mas depois compensam-nos”. A vontade está acima de qualquer pré-requisito e a palavra sacrifício não faz parte do léxico de um horticultor urbano.


Por Cristina Belo/ Revista Máxima


Comentários

  1. olá boa tarde, tendo iniciado este ano a minha horta na varanda gostaria de saber qual a fonte da imagem publicada, e que os "vasos" são fabulosos! obrigada, tudo de bom. marina félix

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  2. Olá

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