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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A arte de sobreviver da agricultura para viver para a pintura


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Um dia uma mãe de cinco filhas decidiu mergulhar na terra como uma semente e dedicar-se à agricultura. Na quinta da família, em Azambuja, recomeçou do zero depois de um casamento infeliz. A rapariga de ar frágil em quem ninguém acreditava pulverizou a Quinta do Alfaro com pomares de várias cores. Nas tardes escuras, inúteis para o trabalho no campo, dedicou-se à sua paixão: a pintura. E reencontrou mais tarde um outro amor dos tempos de juventude. Cinquenta e um anos depois.


Enquanto os pomares de dióspiros e maçãs cresciam nas terras férteis da Quinta do Alfaro, em Azambuja, Eduarda Luísa Jorge, matriarca de uma família de cinco filhas, aproveitava as tardes escuras de Inverno, inúteis para a agricultura, para colorir as suas telas. Cavalos, casas caiadas de branco, janelas enfeitadas de flores, a porta da igreja, o cruzeiro à noite, tanques e recantos da Azambuja onde nasceu. Ao trabalho na agricultura, que abraçou para sobreviver e ajudar a sustentar a família, juntou a pintura, que manteve pelo prazer. “Tirava uma fotografia ao cenário e dava cor ao quadro. Depois voltava ao local, de manhã ou ao final da tarde, porque gosto das sombras, e acabava a pintura sentada dentro do carro”, conta aos 72 anos uma mulher enérgica, de rosto magro.

Quando a tela era muito volumosa levava um cavalete que encostava ao carro. Havia pessoas que paravam para perguntar. Foi assim que vendeu o seu primeiro quadro. A pintura deu-lhe prazer mas também a possibilidade de ganhar dinheiro. As compotas e bolos que preparava e vendia com a ajuda das filhas igualmente. Na altura em que as árvores de fruto estavam a crescer e a produção era pequena eram fonte de rendimento para a família. Numa exposição que fez na Galeria Maria Cristina Correia, em Azambuja, vendeu 17 de 19 quadros. Acredita por isso que se tivesse começado mais cedo poderia ter ido mais longe.

No liceu já era uma boa aluna a desenho como comprovam um pato e limões desenhados em 1956 e 1957. A pintura surgiu na sua vida inesperadamente. Tal como a agricultura. Mergulhou no labor da terra quando já tinha cinco filhas. Deixou um casamento infeliz no Norte, envolto em violência, e voltou à quinta da família para tentar ganhar a vida. As duas filhas mais velhas, que já trabalhavam como professoras, garantiram o sustento da família numa fase inicial. “Vim sem a ideia exacta do que havia de fazer. Queria fugir daquele inferno”, confessa.

Eduarda Luísa Jorge aproveitou as ajudas da União Europeia e lançou-se como uma semente na terra em 1988. Arrancou culturas dispersas para ganhar em escala. Fez dois furos e duas puxadas eléctricas. Deixou para trás a vinha, que não a entusiasmava, e concentrou-se nas maçãs, nêsperas, ameixas, citrinos, pêssegos e dióspiros. Foi comprar as melhores árvores a Alcobaça e pediu ajuda aos melhores agrónomos.

“Como é que você sabe disto tudo se nunca trabalhou na agricultura com o seu pai?”, perguntavam-lhe. Um dos engenheiros da empresa de Alcobaça vinha almoçar à quinta ao fim de semana com a família e deixava-lhes conselhos. Eduarda Luísa Jorge bebia os ensinamentos técnicos em conversas e nos livros. Um dia disseram-lhe: “Parece uma rapariga da escola a podar um pomar”. Eduarda Luísa Jorge não deu má resposta mas quando chegou a altura da frutificação quem desdenhou teve que dar a mão à palmatória. Vendeu dos seus dióspiros especiais, sem adstringência, para o Brasil quando eram considerados ainda fruto raro. Garantiu quem lhe escoasse o produto também em Portugal. As frutas eram de grande qualidade. “Ainda estava na árvore e já estavam vendidas”, diz com orgulho.

Deparou-se com a concorrência dos Espanhóis mas não desistiu. “As primeiras ameixas vendi-as a 110 escudos. Sabe para onde foram? Para Moçambique. Para meia dúzia de poderosos”, espanta-se com as contradições da vida.

Quando o negócio floresceu vendeu a grosso para mercados abastecedores e hipermercados. A força de uma mulher agricultora, quando havia poucas, atraiu estudiosos à quinta. Os inquéritos apareciam pelo correio e em alguns casos a excepção à regra era confirmada à porta. Chegou a receber cartas com o nome de Eduardo.

Fechou a firma no final de 2009. Em 2010 arrancou todas as árvores. Depois de 23 anos na agricultura. Não voltaria a arriscar nos dias de hoje. Não tanto pela crise mas pela concorrência desleal e por leis que não fazem sentido. “Começaram a exigir que o chão fosse especial. O tecto do armazém onde guardava a fruta também não podia ser de madeira”, lamenta.

A agricultura como a pintura exige sensibilidade. “Ao passar numa árvore percebo-a só de olhar para as suas folhas. Um empregado, analfabeto mas inteligente, perguntava-me o que ía eu descobrir sempre que passeava no pomar. Conseguia ver quando uma doença começava e atacava. A minha fruta era muito bonita”, recorda.

Na quinta, que tem para venda, já só existem árvores de fruto para consumo próprio. Encontram-se muitos materiais antigos recuperados pela pintora que para criar um arranjo vai buscar um cesto antigo e um laço de um vestido de outros tempos. As torneiras antigas adornam a lareira e uma garrafa velha tem luzes de Natal no interior. “Não sou coleccionadora. Sou sucateira”, admite.

Na base de uma mesa com tampo de vidro há uma fotografia de um pomar de dióspiros que se assemelha a uma pintura em tons de vermelho e verde. É a vida a confundir-se com a arte.

Viajar para a escola de burra

Eduarda Luísa Jorge nasceu e cresceu na Quinta do Alfaro, em Azambuja, onde o pai era agricultor e a mãe se dedicava à vida doméstica. Para chegar à escola, no centro da vila, a cinco quilómetros de distância, a menina viajava de burra. Nos alforges levava as pastas de uns e de outros.

Demorava três quartos de hora a chegar à vila. “A burra era muito atrevida. Fugia para casa e deixava-me sem pasta. Era uma carga de trabalhos”, recorda. O pai ia então buscá-la à escola de charrete e às vezes entregar-lhe a pasta quando percebia que o animal tinha fugido com o material da escola.

À época havia quem alugasse casa na vila durante o tempo das aulas para que as crianças estivessem mais próximo. Alguns desistiam. Poucos tiraram a quarta classe. “Os pais precisavam que eles trabalhassem”, justifica.

Teve uma infância feliz, um pai afectuoso e uma mãe dedicada mas mais ausente por ter acompanhado a filha mais velha na recuperação de uma tuberculose num sanatório no Norte. A irmã ainda frequentou o colégio em Azambuja mas Eduarda Luísa Jorge já teve que sair para estudar.

Frequentou o Liceu Maria Amália, em Lisboa, durante um ano. Ficou em casa de um familiar que entretanto cegou. Rumou depois para um colégio interno, em Santarém, junto ao Teatro Rosa Damasceno. A camioneta deixava-a no Largo Sá da Bandeira e a menina percorria a distância com a mala carregada da roupa lavada que trazia de casa. Assim foi dos 13 aos 17. “Não era um colégio de freiras. O meu pai tinha uma visão muito liberal e era uma pessoa muito inteligente”.

O pai, analfabeto, também retirou o sustento para a família da agricultura. Dedicava-se à vinha e aos cereais. Já vendia frutas no mercado da Azambuja que funcionava ao sábado e ao domingo frente à igreja. “Vinham as vendedeiras de Lisboa com aventais enormes e cestos e rapavam tudo o que de bom havia na Azambuja. Regressavam a Lisboa noutro comboio para revenda”, conta. O pai também forneceu frutas e hortaliças para as bases militares de Tancos.

Encontrar um grande amor 51 anos depois

Aos 72 anos Eduarda Luísa Jorge está a viver o grande romance da sua vida. O actual marido é um informático, reformado, da mesma idade, que conheceu ainda nos tempos do liceu de Santarém e com quem namoriscou aos 17 anos em Santarém. Cinquenta e um anos depois voltaram a reencontrar-se. Amílcar Pereira procurou-a na quinta e Eduarda Luísa Jorge aceitou tentar voltar a ser feliz, depois de ter vivido 26 anos sozinha. “Veio procurar-me mas andou perdido”, diz sem disfarçar um sorriso rasgado.

Ele tem três filhos de um casamento anterior. Ela cinco filhas. Estão juntos há cinco anos e são inseparáveis. O actual marido gosta de passear e Eduarda Luísa Jorge não quer contrariá-lo. Viajam juntos e vão ao teatro. O marido quer que Eduarda Luísa Jorge volte à pintura a tempo inteiro. Quer descobrir a paisagem ideal, levar-lhe o cavalete até lá e esperar que a inspiração surja. O Outono chegou mas o casal vive agora a primavera da vida.

Azambuja parou no tempo

Ao contrário da maioria das vilas das redondezas Azambuja parou no tempo. Felizmente. Quem o diz é Eduarda Luísa Jorge que passou para a tela muitos dos cenários da vila. “Não se fizeram muitos mamarrachos. Há alguns mas conservou-se o centro. Há coisas muito bonitas na Azambuja de que nós nem nos apercebemos. Não se desenvolveu muito e talvez tenha sido bom para preservar o ambiente”, analisa.

Não é apologista da filosofia do velho do Restelo e até vê com bons olhos algumas novas urbanizações bem enquadradas. A festa brava não está entre as suas paixões mas aprecia a obra da nova praça de toiros. “Está engraçado. É uma obra condicionada que não teve grande despesa mas fizeram bem”. Gosta do ambiente de vila. Aos sábados vai ao mercado comprar hortaliça.

Via: O Mirante


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