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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Safira, uma aldeia que não existe



Da antiga freguesia condal, desabitada desde 1930, apenas restam destroços onde se inclui uma igreja do século XV.
As terras são como as pessoas: quando têm uma idade avançada necessitam de maiores cuidados, de um acompanhamento continuado e nalguns casos de ser tratadas convenientemente para manterem uma certa vitalidade. Quando tal não sucede surge aos poucos a fase da degradação dando início a uma nefasta actividade. E se além da doença ainda se acrescenta um acto de abandono, entregando o paciente à sua sorte, este naturalmente não vai resistir e a morte é o destino mais provável.
E Safira, a terra de que hoje falamos, passou por todas as fases atrás descritas: foi pujante, teve vida activa e até uma certa preponderância em relação à sua época. Depois começaram tempos diferentes, o interesse decaiu, seguiu-se o abandono e o inapelável falecimento. Chegou a ser freguesia do concelho e Montemor-o-Novo e hoje está reduzida a um montão de escombros face à debandada da população, cujos últimos elementos a deixaram em 1930.
Setenta e oito anos depois, habitações, igreja e estruturas agrícolas reduzem-se a paredes derrocadas e traves mestras apodrecidas que abateram levando na queda os telhados. Tudo se encontra envolvido numa certa aura fantasmagórica da qual se salva apenas o cemitério, minimamente limpo do capim que cobria as campas e com o muro caiado.
No ano 1768 o Padre Thomás de Vasconcelos Camello, à altura pároco da igreja de Nossa Senhora de Safira (noutros tempos sob a designação de Nossa Senhora da Natividade) respondendo "aos interrogatórios" ordenados pelo então Arcebispo de Évora Dom Frei Miguel de Távora, escrevia: "tem esta freguesia 57 propriedades, e nelas se incluem 120 fogos onde residem 578 pessoas. No alto de uma charneca estão edificadas a igreja e as casas do padre e do sacristão ".
O resto do documento inflecte depois para a actividade religiosa local; a descrição do templo e suas alfaias, para a actividade agrícola e de pastorícia ali existentes, um pouco dos factos ocorridos com os pagamentos das rendas e a terminar, a menção dos estragos provocados pelo terramoto de 1755: uma racha no arco da Capela-mor, outra na parede lateral direita e alguns prejuízos no campanário e no sino. E o mesmo sacerdote acaba deste modo a sua prosa: "É esta a resposta que a minha incapacidade pode descobrir para dar aos inclusos interrogatórios que me entregaram nesta paroquial de Nossa Senhora de Safira".
O texto integral redigido pelo Padre Vasconcelos Camello, e que é muito interessante, pode ser lido na revista Almansor (nº 5 1ª Série pág. 179/184) no capítulo dedicado às "Memórias Paroquiais".

Perguntas sem resposta
É difícil encontrar muita documentação acerca de Safira. Por outra via apurámos que a sua igreja foi construída no século XV, no decorrer do Bispado do Infante Cardeal D. Afonso, filho de D.Manuel, e que era simultaneamente Bispo de Évora e Lisboa. Também noutra informação recolhida fala-se da existência naquela localidade de uma fábrica de cal e ainda duas minas (de arsénio, na Herdade da Gouveia de Baixo; e outra de cobre e ferro na denominada Herdade da Caeira). Ainda no que respeita à agricultura sabe-se que predominava o cultivo da cevada.
E é isto que se consegue apurar acerca de Safira, uma localidade que tem placa toponímica bem visível na EN 4 na qual cortando-se para a esquerda se passa a circular num alcatroado sofrível que termina precisamente na aldeia, onde se é "acolhido" pelos destroços do que foi a antiga taberna e de umas habitações.
A pergunta que com mais frequência é colocada tem a ver com as razões determinantes do abandono da população; um êxodo já a caminhar para perto de um século. Consultámos a esse propósito o historiador montemorense Dr. Jorge Fonseca que presume não ter existido nenhuma situação estranha. Na sua opinião considera tão simplesmente que as condições de vida na época não seriam muito favoráveis num local tão isolado, e se verificaria uma vontade dos habitantes no sentido de se transferirem para uma zona mais propícia (como foi o caso de muitos terem-se deslocado para Silveiras).
Curiosamente, do outro lado da estrada existe uma situação idêntica à de Safira: estamos a referir-nos a Santo Aleixo. Mas, mesmo assim acreditamos plenamente no fascínio que esta aldeia continuará a exercer em todos quantos gostam de desvendar a região do Alentejo. E Safira já motivou alguém para se apoiar nos seus mistérios e interrogações como tema para defender uma tese de doutoramento.
Portanto, enquanto a velha igreja subsistir até à última pedra, os barrotes suportarem o que sobra das coberturas e as árvores ao redor derem um pouco de verde e sombra ao lugar, Safira irá resistir. Porque as pessoas, como as terras quanto mais velhas mais se apegam à vida, mais tempo duram, contra todos os prognósticos dos médicos deste mundo. O requiem por Safira parece estar ainda por escrever.
O visconde e conde de Safira
José Leite de Vasconcelos, etnólogo e filólogo português escreveu em 1919 um pequeno folheto intitulado "Safira: Freguesia Condal do Alentejo, estudo etimológico". É um raro documento que curiosamente não faz parte do acervo da nossa Biblioteca Pública em Évora, mas poderá ser compulsado na Gulbenkian e nas Universidades Católica, de Coimbra e Nova.
Safira foi título de Nobreza para Augusto Dâmaso Miguens da Silva Ramalho da Costa, grande proprietário em Montemor-o-Novo onde exerceu também o cargo de Presidente da Câmara local. O título de Visconde foi criado a seu favor por decreto do Rei D. Luís em 30 de Abril de 1886 e posteriormente elevado a Conde. O óbito deste Nobre registou-se em Montemor a 3 de Fevereiro de 1945. O título está hoje extinto.



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