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Notícia do Projecto Novos Rurais no portal MSN


MUDANÇAS DE VIDA CONTRA O STRESS

Escrito por  Teresa Nunes com entrevista a João Monge Ferreira

A fuga de jovens e famílias da cidade para o campo é cada vez mais uma realidade incontornável. O desemprego urbano, a fuga ao stress e a paixão pela vida rural estão a operar uma verdadeira transformação no interior de Portugal. Conheça as histórias de quem mudou de vida em nome da paz e do sossego.

Já lá vão dois anos que Eduarda e Rafael, jovem casal na casa dos 30, puseram em marcha um plano de mudança radical: fugir da cidade e passar a viver fora de Lisboa numa pequena casa térrea, com terreno para os seus dois (agora três) cães, perto da praia e rodeados de pinheiros. Para trás, ficou o apertado apartamento no Dafundo, o stress do estacionamento ao chegar a casa, o barulho infernal do intenso tráfego e, claro, as horas intermináveis nos transportes para chegar ao emprego. Complicada também era a situação dos cães de Eduarda e Rafael, a quem o casal queria proporcionar mais do que os poucos momentos de vida ao ar livre que lhes conseguiam dar por dia.

"Procurávamos uma outra casa no Dafundo ou ali perto, quando deparámos com uma moradia na Charneca da Caparica, pequena mas linda e com um terreno ótimo. Equacionámos os prós e contras de uma mudança tão radical já que tínhamos a família toda deste lado, assim como os empregos. Fizemos contas ao dinheiro, mas pesou a liberdade e o tempo que ganharíamos para nós", conta Eduarda.

Volvidos dois anos, qual é o saldo? "Temos mais tranquilidade, mais privacidade e ar puro. Relativamente à minha asma, noto enormes diferenças. Como respiro melhor, parece que ando mais leve. Além que ganhámos tempo para nós e qualidade de vida" explica Eduarda, acrescentando: "Voltávamos a fazer o mesmo e até mais para o interior. Se um de nós tivesse uma excelente oportunidade de emprego numa zona rural, iriamos com toda a certeza e de sorriso na cara".

Tal como este casal, a fuga da azáfama urbana começa a ser uma realidade palpável. Fala-se já num fenómeno de fuga das cidades para os campos por uma camada da população jovem, executiva, empreendedora, que ambiciona uma vida sem stress e apegada aos valores rurais.

Jovens agricultores sempre a aumentar

Aliás, o número de jovens agricultores portugueses tem vindo a aumentar exponencialmente, assim como as candidaturas ao PRODER (Programa de Desenvolvimento Rural da União Europeia) que, em 2012, bateram todos os recordes segundo o Ministério da Agricultura, possivelmente devido à crise económica.

Fundador do Movimento Novos Rurais (MNR), João Monge Ferreira, é um exemplo vivo da mudança de uma família de Lisboa para o espaço rural. Há oito anos, deixou a capital e instalou-se em Loulé, no Algarve. Foi na pacatez algarvia que se lançou no desenvolvimento dos projetos Novos Rurais e EcoCasa Portuguesa. Ambos destinados a facilitar e promover a migração para as zonas rurais.

Segundo João Monge Ferreira, o MNV designa uma nova classe de pessoas que, tendo nascido nas cidades, opta por uma vida mais tranquila e próxima da natureza, pessoas que são amantes da vida no campo.

"Podemos dizer que o MNV é um movimento de empreendedores, pessoas que sabem exatamente o risco que correm mas, mesmo assim, querem mudar de vida. A iniciativa pretende ainda permitir que a sociedade urbana reencontre o prazer de cultivar e de cuidar de pequenas hortas, promovendo valores como o autoconsumo, a saúde e o bem-estar", explica o fundador do movimento.

Mas será que já se pode falar num fenómeno de "êxodo citadino"? João M. Ferreira é categórico: "A saída das famílias das cidades para os campos é uma tendência crescente principalmente na camada mais jovem. Muitos são licenciados desempregados ou que estão saturados das cidades. O stress, o desemprego, o custo de vida elevado, e principalmente a falta de tempo levam a que cada vez mais se procure uma vida no campo", explica, acrescentando: "Convém não esquecer a componente ecológica, o estar ligado à natureza, as hortas urbanas, as hortas em casa, as hortas comunitárias."

À frente do MNR, João reúne e partilha ideias, projetos e experiências sobre a paixão da vida no campo. No movimento, vai "agregando pequenos agricultores biológicos e aproveitando este nicho da economia que é vital ao desenvolvimento do país, privilegiando, de forma sistemática, a aquisição de produtos portugueses, adquirindo-os a pequenos produtores e gerando riqueza no país, consolidando postos de trabalho nacionais."

O MNR dinamiza ainda fóruns de discussão, a apresentação de projetos de turismo rural e turismo de natureza, "salvaguardando deste modo a nossa riqueza patrimonial, natural, cultural e turística, promovendo também workshops, em temáticas como hortas urbanas, permacultura e eco-construção".


A paixão campestre de João Monge Ferreira impulsionou ainda a criação do projetoEcoCasa Portuguesa. A ideia é ter uma Eco Casa para todos, construída através de uma rede de fornecedores cem por cento portugueses que se tornam embaixadores da causa.

"É esta a ambição do projeto: atrair, sensibilizar e informar as pessoas que procuram (re)construir edifícios e espaços. Para tal, são convidados todos aqueles que projetam, planeiam e executam as construções e os equipamentos, com uma atitude intencional na criação de construções sustentáveis, com menores custos económicos e ambientais e aportando valor acrescentado à qualidade de vida". E na página de facebook da Eco-Casa Portuguesa o sucesso do projeto mede-se pelos mais de 62 mil seguidores e pelos inúmeros comentários diários no mural.

Vida rural

E poderá o campo ser uma porta para quem está no desemprego e afetado pela crise económica? "Sem dúvida!" - admite João Ferreira - "Embora o desemprego seja transversal a todo o país, na agricultura há muito que fazer, ainda há um grande caminho a percorrer sendo neste momento uma janela de oportunidade", defende João Monge Ferreira, deixando o seguinte conselho:

"Qualquer pessoa que está insatisfeita com o seu modo de vida deve tentar inverter essa situação. Efetivamente no campo ou em cidades mais pequenas, ganhamos muito tempo para nós e para a família. O stress deixa de fazer parte do vocabulário corrente, tudo fica mais perto e os dias parecem maiores. No entanto, tenho que alertar para o isolamento, para a dificuldade de aquisição de certos produtos, a falta de oferta cultural a rede deficitária de transportes."

E o que fazer perante esta última advertência? Manter a calma e ver as coisas numa outra perspetiva é uma opção.

"Mudar de vida não é uma tarefa fácil, a adaptação ao modo de vida das aldeias pode ser um choque para quem nunca teve contacto com esta realidade e só vê o lado romântico da situação", admite o dirigente dos Novos Rurais, continuando: "No entanto, e no contexto atual, há cada vez mais vantagens em ir viver para o campo. Regra geral o custo de vida é mais barato que nas cidades e, se pensarmos bem, Lisboa e Porto não são assim tão longe o que nos permite, sempre que sentirmos necessidade da oferta (principalmente) cultural e de entretenimento, uma fácil deslocação. A maneira de ser das gentes do campo é um elemento muito facilitador para a integração social."

Apesar de haver muito a ponderar e múltiplos obstáculos a ultrapassar, uma mudança de vida como aqui se fala é possível recorrendo a alguns apoios e financiamentos. O Movimento Novos Rurais enumera alguns: FEADER – Fundo Europeu Agrícola de Desenvolvimento Rural; PRODERQREN - Quadro de Referência Estratégico Nacional; PRRN - Programa da Rede Rural Nacional; CAP - Agricultores de Portugal.

Fontes: 

João Monge Ferreira, Movimento Novos Rurais

Eduarda Oliveira



Movimento Novos Rurais 
Pessoas mais livres, plenas e felizes 
https://www.facebook.com/novosrurais.farmingculture



Notícia do Movimento Novos Rurais no Portal VER:

Um regresso com futuro

São jovens empreendedores que migram para o campo com uma renovada cultura de território, e visão a longo prazo da importância da agricultura para o País e para o seu legado. Promovem um regresso sustentável à ruralidade, que combate o desemprego, estimula o desenvolvimento económico e gera poupanças na economia familiar


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Em 2015, mais de 69 por cento da população portuguesa viverá nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. O número avançado recentemente pela ONU revela um crescimento significativo desta concentração, que não é nova: em 2001, 42% da população vivia nas áreas metropolitanas.
Sucede que esta realidade promove o aumento do custo de vida (no mesmo ano, setenta por cento do endividamento das famílias concentrava-se nas áreas metropolitanas), dos problemas de mobilidade e das condições de vida precária, a nível social mas também ambiental.
Para os Novos Povoadores, a promoção de oportunidades de empreendedorismo nos territórios rurais “provocará o desejado êxodo urbano”. Reduzir o fosso das assimetrias regionais com benefícios para os novos residentes e para os territórios de baixa densidade é um objectivo a conseguir através da instalação de unidades empresariais no interior, a custos reduzidos, e com uma mão-de-obra também mais barata que a dos centros urbanos.
O campo torna-se ainda uma boa escolha pela reconhecida qualidade de vida que proporciona, graças à sua baixa densidade, defendem os Novos Povoadores, que estão a dinamizar uma rede de empreendedorismo no meio rural, em sectores económicos suportados pelas Tecnologias de Informação e Comunicação.
Uma “economia sem geografia” não é uma visão utópica numa sociedade cada vez mais globalizada, preconizam, e “a ruralidade tem hoje atractivos que lhe permite competir com as áreas urbanas, garantem.
Frederico Lucas, que promove o projecto Novos Povoadores e coordena o infoex.pt (iniciativa que acolhe em património edificado ao abandono, no interior do país, empresas de jovens empreendedores, em áreas como a agricultura, a comunicação ou a floresta), é um defensor dos Working Labs, oficinas de experimentação profissional que estão a ser dinamizadas em articulação com algumas autarquias. Estas oficinas resolvem dois problemas, afirma: são uma alternativa para muitos jovens qualificados no desemprego e dinamizam os equipamentos públicos já existentes nos meios rurais.

Neste modelo flexível de ‘levar a cidade para o campo’, a agricultura surge como área estratégica, já que “é consensual que Portugal pode reduzir a dependência externa dos produtos agrícolas”. Esse caminho pode e deve ser traçado apoiando novas iniciativas agrícolas orientadas para as novas tendências de consumo, defende Frederico Lucas.
Ainda vive na cidade? 
“Segue o teu destino, Rega as tuas plantas, Ama as tuas rosas. O resto é a sombra De árvores alheias.” É com esta filosofia de vida que o Movimento Farming Culture, Novos Rurais defende novos valores que sustentam a procura da proximidade com a natureza e com a vida no campo.
Pensar o "rural" e o "urbano" a partir da interacção de agentes sociais que visam “romper com a dualidade inerente a essas categorias” é a missão deste projecto que se dirige a uma nova classe de pessoas que, tendo nascido na cidade, opta por viver no campo.
Os também chamados Agricultores de Sofá são jovens executivos, empreendedores, que “gerem a dinâmica e o stress empresarial mas não usam gravatas". Amantes do campo, tendem a aproveitar o melhor do meio rural mantendo algum do conforto que tinham na cidade.
Mas, como é, na prática, dinamizado o movimento Novos Rurais? 
Reunindo e partilhando ideias, projectos e experiências, sobre a paixão da vida no campo. Agregando pequenos agricultores biológicos e aproveitando “este nicho da economia que é vital ao desenvolvimento do país”. Privilegiando, “de forma sistemática”, a aquisição de produtos portugueses, adquirindo-os a pequenos produtores e gerando riqueza no país, consolidando postos de trabalho nacionais.

Dinamizando fóruns de discussão e apresentação de projectos de turismo rural e turismo de natureza, “salvaguardando deste modo a nossa riqueza patrimonial, natural, cultural e turística”. E promovendo workshops, em temáticas como hortas urbanas, permacultura e eco-construção, explica, em declarações ao VER, João Monge Ferreira, fundador e promotor do projecto Novos Rurais.
“A promoção de oportunidades de empreendedorismo nos territórios rurais provocará o desejado êxodo urbano” – Novos Povoadores.
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A iniciativa pretende ainda permitir que a sociedade urbana reencontre o prazer de cultivar e de cuidar de pequenas hortas, promovendo valores como o auto-consumo, e a saúde e bem-estar.

Para este empreendedor, a agricultura “é uma questão de segurança nacional”. Na sua opinião, “vítimas das reformas da PAC, nos últimos vinte anos temos vindo a perder cultura de território, que demorámos centenas de anos a adquirir”. Crítico, João Monge Ferreira considera que o País tem “gradualmente abandonado a agricultura e vimos as nossas reservas estratégicas reduzidas a números assustadores”.
Portugal assumiu uma vocação florestal que foi importante para a economia a curto prazo, diz, mas “devastadora para o território a médio e longo prazo, como têm demonstrado os últimos anos, em que vimos boa parte do território nacional a arder e os solos, já de si pobres, a empobrecerem ainda mais”.
A boa notícia, garante, é que “a agricultura está de volta”: os neo-rurais são agricultores que “voltam a ter uma grande cultura de território e visão a longo prazo, da importância da agricultura para o seu país e para o seu legado”.